Ander Beça é um cineasta trans não-binário que trabalha nas áreas de direção, roteiro, atuação e montagem. Dirigiu os curtas Festa Infinita (2024),
O Olho e O Espírito (2017), Limonada (2011) e Sem Energia (2011). É reconhecido pela montagem em Negrum3 (2018, Diego Paulino) e pela atuação como a personagem Penha em Fim de Festa (2020, Hilton Lacerda). É membro fundador do MOV — Festival Internacional de Cinema Universitário e integra a equipe técnica do Janela Internacional
de Cinema. Está em pós-produção de seu primeiro longa, De Volta ao Começo, e em desenvolvimento de roteiro de outros dois: O Último Anjo da Noite e Toda Memória é da Vida. Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-SP com orientação de Suely Rolnik, e graduado em Cinema e Audiovisual (UFPE / Universität Leipzig / Filmuniversität Potsdam-Babelsberg).

Ander beça_
notas do diretor_
Em Recife, todo mundo tem uma história para contar sobre o Mirabilândia. A minha começa em 1998, aos sete anos, no arrepio de chegar perto da Mansão do Terror - a atração em torno da qual o público inventava lendas. É desse chão afetivo, muito particular e muito provinciano, que eu parto para falar de algo maior. Sempre me interessou universalizar temas a partir de suas singularidades: pegar um parque de diversões decadente do Nordeste e dele extrair um drama sobre amor, ambição e loucura que reverbera para muito além da cidade.
O Último Anjo da Noite nasce do desejo de transformar esse universo de medo e brincadeira em ficção, costurando a nostalgia de uma geração recifense emo, otaku e gótica, a minha, com a cultura queer contemporânea da cidade. Fui esse adolescente que fez cosplay, viveu a melancolia gótica e cedo entendeu não caber na cisheteronormatividade. Quero colocar pessoas trans no protagonismo não para falar das dores da transição, mas de amores mal resolvidos, crises profissionais, manias de grandeza, corpos dissidentes que simplesmente existem dentro de uma narrativa com outros focos.
Meu método parte de uma imagem que o próprio filme oferece: a máscara. O Terror Noturno é um espetáculo de monstros, e me interessa começar pela superfície dessas fantasias, o exagero, a caricatura, o glamour do horror de brincadeira para, aos poucos, emprestar humanidade ao que há por trás delas. A monstruosidade que esses jovens vestem acaba revelando algo que mora dentro deles. É aí que contraponho os dois medos que estruturam o filme: o medo de brincadeira do espetáculo e o medo real, o de enlouquecer, que assombra um mundo de sofrimentos psíquicos crescentes.
A narrativa se arma em dois fios que se entrelaçam: a relação entre Lian e Cheetara, movida por admiração e rivalidade, e a investigação de Hibari, que descobre que uma Luz sobrenatural marcou sua saúde mental desde a infância. A trama de Hibari prepara e ilumina o instante em que o próprio Lian encara a Luz e mergulha no delírio. Sobre tudo isso paira A Divina Comédia de Dante como camada simbólica, a Luz oracular dialoga com o Deus do Paraíso, e os figurinos de anjos e demônios dão forma ao espetáculo e ao abismo.
O Último Anjo da Noite nasce
do desejo de transformar esse universo de medo e brincadeira em ficção, costurando a nostalgia de uma geração recifense emo, otaku e gótica, a minha,
com a cultura queer contemporânea da cidade.
Quero atualizar o terror, gênero que tantas vezes partiu de lugares machistas e homofóbicos, a partir de outra perspectiva. Misturo drama, terror e pitadas de comédia sem me prender a classificações, dialogando com um cinema que vai de Twin Peaks (David Lynch) e Cure (Kiyoshi Kurosawa) - o onírico, o sobrenatural, o contágio da loucura - a Amadeus (Milos Forman) e Showgirls (Paul Verhoeven), pela inveja e a rivalidade criativa, passando por E Então Nós Dançamos (Levan Akin), pela paixão-rivalidade queer, e por O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (Robert Aldrich) e Crepúsculo dos Deuses (Billy Wilder), pelo delírio de grandeza. Reconheço-me também no cinema brasileiro contemporâneo de gênero - Anita Rocha da Silveira, Juliana Rojas, Marco Dutra, Gabriela Amaral Almeida - e no cinema pernambucano da fantasia e da invenção, de Carro Rei a Sujeito Oculto.
Esteticamente, o filme se banha nos anos 2000, o emo, o gótico, o otaku, e na trilha que embalou essa geração, de Evanescence e System of a Down ao Memento Mori do Depeche Mode. Mas, no fim, o que me move é a geografia humana desse parque: seus figurantes esquisitos, seus bastidores, sua decadência encantadora. É revelando essa fauna afetiva, a nossa, que O Último Anjo da Noite quer trazer à superfície um horror íntimo sobre a juventude, o trabalho e a normatividade, e nos deixar, ao final, diante do mais real dos medos: o de perder a razão.
